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Teste de normalidade: Shapiro-Wilk ou Kolmogorov-Smirnov?

Shapiro-Wilk ou Kolmogorov-Smirnov? Como testar a normalidade, ler o gráfico Q-Q e o que fazer se os dados não forem normais. Com exemplo APA.

· 4 min de leitura

O teste de normalidade verifica se uma variável segue a distribuição normal (a «curva em sino»). É o pressuposto que decide entre um teste paramétrico (teste t, ANOVA, Pearson) e a sua alternativa não paramétrica (Mann-Whitney, Kruskal-Wallis, Spearman). Os dois testes mais usados são o Shapiro-Wilk e o Kolmogorov-Smirnov com correção de Lilliefors.

O ponto que mais confunde os estudantes: aqui, o resultado que se deseja é um p não significativo (p > 0,05). Significa que não há evidência de que os dados se afastem da normalidade.

Quando fazer o teste de normalidade

  • Antes de um teste t ou de uma ANOVA: a normalidade verifica-se dentro de cada grupo, não na amostra toda.
  • Antes de um teste t emparelhado: verifica-se na diferença entre as duas medidas.
  • Antes de uma correlação de Pearson: em cada uma das variáveis.
  • Depois de uma regressão: nos resíduos do modelo, não nas variáveis.

Shapiro-Wilk ou Kolmogorov-Smirnov?

  • O Shapiro-Wilk é o mais potente dos dois e é o recomendado sobretudo para amostras com menos de 50 casos por grupo, mas funciona bem até alguns milhares.
  • O Kolmogorov-Smirnov (com correção de Lilliefors, a versão que o SPSS usa no Explore) é tradicionalmente reportado com amostras maiores. É menos sensível.

Na prática: reporte o Shapiro-Wilk, e acrescente o Kolmogorov-Smirnov se o seu orientador ou a sua área o pedirem. Quando os dois discordam, pese também o gráfico Q-Q e a assimetria.

Hipóteses do teste

  • H₀: os dados seguem uma distribuição normal.
  • H₁: os dados não seguem uma distribuição normal.

Se p > 0,05, não se rejeita H₀ e pode assumir-se normalidade. Se p < 0,05, rejeita-se H₀: os dados afastam-se da normalidade.

Exemplo resolvido

Pergunta: a produtividade segue distribuição normal dentro de cada sexo? É o que é preciso saber antes de comparar a produtividade de homens e mulheres com um teste t.

Tabela 1 Testes de normalidade da produtividade, por sexo
GruponShapiro-Wilk WpK-S (Lilliefors) DpAssimetriaCurtose
Masculino500,9800,5460,0900,404−0,22−0,54
Feminino700,9890,7970,0750,4960,14−0,28

Como fazer no Analisador de Dados

  1. Abra a aba Análises e escolha «Testes de normalidade».
  2. No campo Variáveis, marque a variável a testar (aqui, a produtividade).
  3. No campo Agrupar por, marque a variável que define os grupos (aqui, o sexo). Assim, a normalidade é testada dentro de cada grupo, que é o que o teste t e a ANOVA exigem.
  4. Ligue Assimetria e curtose e deixe os gráficos Q-Q ativos.

No SPSS: Analyze › Descriptive Statistics › Explore, com a variável de grupo em Factor List e, em Plots, a opção Normality plots with tests.

Como interpretar o resultado

Nos dois grupos, o Shapiro-Wilk não é significativo: homens W = 0,980, p = 0,546; mulheres W = 0,989, p = 0,797. O Kolmogorov-Smirnov concorda (p = 0,404 e p = 0,496). A assimetria e a curtose estão muito perto de zero. Conclusão: pode assumir-se normalidade e comparar a produtividade com um teste paramétrico.

Como ler o gráfico Q-Q

O gráfico Q-Q põe os valores observados contra os que se esperariam numa distribuição normal. Se os pontos seguem a diagonal, os dados são normais. Desvios nas pontas, em forma de «S» ou de banana, indicam caudas pesadas ou assimetria. Com amostras grandes, o gráfico é muitas vezes mais informativo do que o valor-p.

Como reportar em formato APA

Modelo de redação

A normalidade da produtividade foi avaliada com o teste de Shapiro-Wilk em cada grupo. Não se verificaram desvios significativos da normalidade nem no grupo masculino, W = 0,980, p = ,546, nem no feminino, W = 0,989, p = ,797, pelo que se optou por um teste paramétrico.

E se os dados não forem normais?

Três caminhos, por ordem de preferência:

  1. Use o teste não paramétrico equivalente: Mann-Whitney em vez do t independente, Wilcoxon em vez do t emparelhado, Kruskal-Wallis em vez da ANOVA, Spearman em vez de Pearson.
  2. Com grupos grandes (30 ou mais casos cada) e desvios ligeiros, o teste t e a ANOVA são robustos e pode mantê-los, justificando com o tamanho da amostra e mostrando a assimetria.
  3. Verifique os outliers: às vezes, um ou dois valores atípicos (ou erros de introdução) são a causa da não normalidade.

Atenção com amostras grandes

Com centenas de casos, o Shapiro-Wilk deteta desvios minúsculos, sem importância prática, e dá p < 0,05. Nessas situações, decida também pela assimetria e curtose (valores entre −1 e 1 são aceitáveis) e pelo gráfico Q-Q.

Erros comuns

  • Interpretar p < 0,05 como «os dados são normais». É o contrário: p < 0,05 rejeita a normalidade.
  • Testar a normalidade na amostra toda quando vai comparar grupos. O pressuposto é por grupo.
  • Testar as duas medidas no teste emparelhado em vez da diferença entre elas.
  • Testar a variável dependente na regressão em vez dos resíduos.

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