Comparar grupos
ANOVA de um fator: comparar três ou mais grupos
ANOVA de um fator passo a passo: quando usar, pressupostos, como ler F, p e eta-quadrado, o post-hoc e a redação em APA. Exemplo com 3 grupos.
A ANOVA de um fator (análise de variância, ou one-way ANOVA) compara as médias de três ou mais grupos independentes. É a extensão natural do teste t: quando o teste t compara dois grupos, a ANOVA compara três, quatro ou mais de uma só vez, por exemplo o salário por nível de escolaridade ou a nota por curso.
A ANOVA responde a uma pergunta em duas partes. Primeiro diz se há alguma diferença entre os grupos. Se houver, um teste post-hoc diz entre quais grupos ela está.
Porque não fazer vários testes t?
Com três grupos, seriam precisos três testes t (A–B, A–C, B–C); com quatro, seis. Cada teste tem 5% de probabilidade de dar um falso positivo, e essas probabilidades acumulam-se: com seis testes, o risco de pelo menos um falso positivo passa dos 26%. A ANOVA faz um único teste global e mantém o erro nos 5%.
Quando usar
- Variável dependente numérica (nível Escala).
- Fator categórico com três ou mais grupos (nominal ou ordinal).
- Cada participante pertence a um só grupo.
Pressupostos
- Normalidade em cada grupo: Shapiro-Wilk por grupo. Robusto com 30 ou mais casos por grupo.
- Homogeneidade de variâncias: teste de Levene. Se falhar, use a ANOVA de Welch.
- Independência das observações.
Se a variável for ordinal ou a normalidade falhar com grupos pequenos, a alternativa é o teste de Kruskal-Wallis.
Hipóteses
- H₀: as médias de todos os grupos são iguais (μ₁ = μ₂ = μ₃).
- H₁: pelo menos uma média é diferente das outras.
Exemplo resolvido
Pergunta: o salário médio difere entre os três níveis de escolaridade (Ensino Médio, Licenciatura, Pós-graduação)?
| Escolaridade | n | M | DP | IC 95% |
|---|---|---|---|---|
| Ensino Médio | 33 | 44 139,88 | 7 592,30 | [41 447,77; 46 831,99] |
| Licenciatura | 59 | 55 505,97 | 9 414,87 | [53 052,44; 57 959,49] |
| Pós-graduação | 28 | 68 844,32 | 9 619,28 | [65 114,35; 72 574,29] |
| Fonte | SQ | gl | MQ | F | p | η² |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Entre grupos | 9 244 708 767,77 | 2 | 4 622 354 383,89 | 57,02 | < 0,001 | 0,49 |
| Dentro dos grupos | 9 484 006 809,55 | 117 | 81 059 887,26 | |||
| Total | 18 728 715 577,33 | 119 |
Levene (centrado na mediana): p = 0,308.
Como fazer no Analisador de Dados
- Abra a aba Análises e escolha «ANOVA de um fator».
- No campo Variável dependente, marque o salário.
- No campo Fator, marque a escolaridade.
- Ligue Estatísticas por grupo, Medidas de efeito e Teste de Levene. Em Post-hoc, deixe «Tukey HSD» (ou «Automático», que escolhe Tukey ou Games-Howell conforme o Levene).
No SPSS: Analyze › Compare Means › One-Way ANOVA; o post-hoc escolhe-se no botão Post Hoc e o Levene em Options › Homogeneity of variance test. O η² não sai no SPSS clássico; calcula-se à mão (SQ entre / SQ total). A ferramenta dá-o diretamente.
Como interpretar o resultado
1. Pressupostos. O Levene não é significativo (p = 0,308): as variâncias são homogéneas, pode ler-se a ANOVA clássica.
2. O teste F. F(2; 117) = 57,02; p < 0,001. Rejeita-se H₀: o salário médio não é igual nos três níveis de escolaridade.
3. O tamanho do efeito. η² = 0,49: a escolaridade explica cerca de 49% da variância do salário, um efeito grande (0,01 pequeno, 0,06 médio, 0,14 grande). O ω² (0,48), menos enviesado, confirma-o.
4. O post-hoc. A ANOVA diz que há diferenças, não onde estão. O Tukey HSD mostra que os três pares diferem significativamente (todos p < 0,001): cada nível de escolaridade ganha mais do que o anterior. Para perceber como escolher e ler o post-hoc, veja o guia post-hoc na ANOVA: Tukey, Games-Howell ou Bonferroni.
Como reportar em formato APA
Modelo de redação
Foi realizada uma ANOVA de um fator para comparar o salário mensal entre os três níveis de escolaridade. O pressuposto de homogeneidade de variâncias foi verificado (Levene: p = ,308). Verificaram-se diferenças estatisticamente significativas, F(2; 117) = 57,02, p < ,001, η² = ,49. As comparações post-hoc de Tukey HSD indicaram que os profissionais com pós-graduação (M = 68 844,32; DP = 9 619,28) auferiam salários significativamente superiores aos licenciados (M = 55 505,97; DP = 9 414,87), e estes, por sua vez, superiores aos do ensino médio (M = 44 139,88; DP = 7 592,30), todos com p < ,001.
E quando a ANOVA não é significativa?
Se p > 0,05, não se fazem comparações post-hoc: não há diferenças a localizar. Por exemplo, na mesma base, o salário por departamento não difere significativamente, F(3; 116) = 2,18; p = 0,094; η² = 0,05, apesar de Operações ter a média mais alta (59 642 MT) e RH a mais baixa (52 411 MT). Reporta-se o F e o η², e conclui-se que não há evidência de diferenças.
Erros comuns
- Parar no F significativo sem post-hoc: o leitor fica sem saber que grupos diferem.
- Fazer post-hoc com a ANOVA não significativa à procura de uma diferença.
- Usar a ANOVA com dois grupos: funciona, mas o teste t é o esperado e o F é o t ao quadrado.
- Esquecer o η². Com amostras grandes, até diferenças pequenas dão p < 0,05; o tamanho de efeito diz se importam.
- Ignorar o Levene significativo. Nesse caso, reporta-se a ANOVA de Welch e o Games-Howell.